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A romantização da maternidade adoece mulheres e sustenta a culpa materna, alerta a psicóloga Maiumi Souza

  • contatovilasboas
  • 23 de fev.
  • 2 min de leitura

Ideal da “mãe perfeita” invisibiliza sofrimento emocional e dificulta

a busca por ajuda, especialmente no período perinatal


A maternidade costuma ser apresentada socialmente como um território de plenitude, amor incondicional e realização absoluta. Essa narrativa, no entanto, tem produzido efeitos profundos sobre a saúde mental das mulheres. A romantização da maternidade transforma uma experiência complexa em um ideal inalcançável, no qual cansaço, ambivalência e sofrimento são silenciados ou interpretados como falhas individuais.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 10% das mulheres durante a gestação e 13% no pós-parto apresentam transtornos mentais, principalmente depressão e ansiedade. Em contextos de vulnerabilidade social, esse percentual pode ultrapassar 20%, segundo a própria OMS. Ainda assim, muitas mulheres demoram a buscar ajuda por medo de julgamento ou por acreditarem que o sofrimento faz parte do “papel materno”.

Estudos publicados na revista científica The Lancet Psychiatry também apontam que transtornos mentais no período perinatal estão entre as principais causas de perda de qualidade de vida entre mulheres em idade reprodutiva, com impacto direto no vínculo mãe-bebê e no desenvolvimento infantil. Apesar disso, a ideia de que “quem ama não se cansa” continua sendo reproduzida socialmente, reforçando a culpa e o isolamento materno.

Para a psicóloga Maiumi Souza, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil, a romantização funciona como um mecanismo de controle emocional e social. “A exaustão materna é naturalizada porque a maternidade ainda é pensada como destino, vocação e prova de amor. Essa lógica romantiza a entrega total e transforma o cansaço em virtude moral. Quanto mais a mãe se anula, mais ela é validada socialmente. O impacto emocional disso é profundo. A exaustão contínua vai corroendo a vitalidade psíquica, o senso de si e o prazer de existir para além da função materna. Muitas mulheres chegam à clínica com culpa por estarem cansadas, vergonha por desejarem pausa e medo de não serem boas mães. O corpo pede descanso, mas o discurso social responde com exigência. E esse desencontro adoece”, afirma.

Segundo a especialista, o ideal de maternidade também desconsidera fatores estruturais como desigualdade de gênero, ausência de rede de apoio, sobrecarga mental e privação de sono. Ao transformar problemas coletivos em fracassos individuais, a romantização impede transformações sociais e atrasa o acesso ao cuidado psicológico. “Não é uma questão de amor insuficiente, mas de um sistema que exige demais e oferece pouco suporte”, reforça.

A psicóloga alerta ainda que a naturalização da exaustão pode afetar o vínculo com as crianças. Quando a mãe está emocionalmente esgotada, a presença tende a se tornar apenas funcional. O cuidado acontece, mas sem disponibilidade afetiva plena. “Cuidar da saúde mental das mães é também cuidar do desenvolvimento das crianças. Vínculos se constroem com presenças possíveis, não com heroísmos exaustos”, completa.

Sobre Maiumi Souza Maiumi Souza é psicóloga, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil. Atua com foco em saúde mental materna, infância e cuidado perinatal, integrando saberes da neurociência, psicologia do desenvolvimento e estudos sobre trauma. Sua prática é orientada por uma escuta ética e sensível, que reconhece os atravessamentos de gênero, raça e classe na experiência psíquica e defende o cuidado como responsabilidade coletiva.




 
 
 

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